Águas coloridas


Quando era pequena, tinha muito medo da água. Para entrar na piscina, só com duas boias, uma em cada braço, e mais uma ao redor da cintura. Não confiava plenamente nessa tecnologia, ainda tinha medo de me afogar, mas desde criança acho que pressentia que nas coisas da vida há duas opções ruins: entrar com medo e equipada, ou não entrar. Meu pai sempre foi um lugar de águas misteriosas, meio exóticas. Sua língua nunca coincidiu com a minha, seu mundo era cheio de sons que não formavam palavras, ou frases, como uma espécie de música. Aprendi a detectar, pelo tom de sua voz, quando ele estava prestes a terminar uma de suas longas conversar em árabe. É agora, ele vai desligar o telefone! Eu e meus irmãos nos olhávamos e ríamos, e comemorávamos internamente nosso domínio sobre essa realidade. A língua é quase toda feita de entonações, de emoções. Acho que por isso nunca busquei dominar aquelas palavras. Sua escrita, esses desenhos tão bonitos, até hoje não sei decifrar. Na minha casa se falava o português, mesmo ele, com seu sotaque. Nunca tentamos ser uma família bilíngue, o árabe era um outro mundo, distante, assustador, bonito. Aprendi a contar até cinco, alguns palavrões e falsos cognatos, o nome de alguns alimentos, e que tudo ali deveria ser lido ao contrário, da direta para a esquerda.

Como toda infância e adolescência, a minha foi estranha à sua maneira. Entre ter que debater teorias filosóficas complexas para justificar minhas idas às baladas, aprender desde cedo que o mundo é feito de dívidas, e por isso não devia temê-las, até descobrir que o amor se mantém de formas estranhas à distância, como um móbile, pendurado, um pouco triste, um pouco comovente. Meu pai invertia o mundo, nada que eu dissesse da esquerda para a direita era suficiente. Batalhei para inverter meu mundo também. Havia algo, algo que ele via, lá onde o Sol nasce e caminha, que sempre me despertou profunda curiosidade. Mas como a filha de James Joyce, ao tentar escrever o que o pai escrevia, acabou psicótica, eu sempre tive medo das águas coloridas em que meus pais pareciam flutuar tão bem.
"Mas aí onde você nada, ela se afoga." Foi o que Jung disse a Joyce, quando ele foi consulta-lo, preocupado com a filha.

Um dos maiores presentes que ganhei do meu pai, foi o que ele não me deu: a tradução incompleta, a distância impossível de atravessar. De alguma forma, por essa clareza, a água já não me assusta como antes. Quando leio seus textos (pois ele é mais ativo que eu nas redes e na escrita), com todas as distorções que o Google tradutor é capaz de incorporar, entendo pouco, mesmo entendendo muito, e preciso inventar. Nunca perco a curiosidade e a desconfiança de que há sempre mais ali. Nesse homem que lê Nietzsche, profundamente, até as entrelinhas, e ri alto, muito alto, como uma montanha feliz, das piadas do Mr. Bean.
Esse é um texto dele, repleto de reflexões filosóficas e teológicas. Ou um belo desenho e uma música, como uma criança poderia sonhar.
رأى نيتشه أن هناك " قدر كبير من القسوة الدينية" وهذا أكثر من بديهي .كانت هناك طرق مختلفة وسلالم متعددة للتقرب من الآلهة في الديانات ألما قبل تاريخية والبدائية. ولكن اعنف تلك الطرق كانت التضحية بالبشر لإرضاء الهتهم ، وربما حتى التضحية باحبهم لقلوب الجماعة أو بالفتاة الأكثر جمالا ! أو كما حدث في المشهد الرهيب عندما ضحى الله نفسه ب "ابنه الوحيد" على الصليب ! وبالمقابل كانت "نذور" تقديم الثمار الأولى لآلهة "طيبة" من طبيعة الأعراق البريئة. وفي جميع الديانات التي تعود إلى عصور ما قبل التاريخ، كانت الآلهة تجسد وتعبر عن الوعي الخاص للعالم لكل جماعة بشرية على حدة. لكنه خلال الحقبة الأخلاقية للبشرية، طلب من المؤمنين التضحية للإله بأكثر غرائزهم عنفًا ، أي التضحية ب"الطبيعة الحيوانية " تحت مراى النظرة القاسية "الشريرة" للكهنة التي يلتمع بها كل ما هو "ضد الطبيعة". ولقد اكتشف اب الأنبياء ابراهيم الخليل "حقيقة" الله في اللحظة التي باشر فيها بالتضحية باعز ما لدية ( إبنه اسحاق أو اسماعيل ) لا فرق. ففي تلك اللحظة بالذات فإنه قطع مع آثار الآلهة القديمة ودخل في رحاب الله الواسعة!
"فماذا بقي ليتم التضحية به؟" يسأل نيتشه. ايكون من الضروري التضحية أخيرا بكل ذلك المزيج من التناغم الخفي بين المقدس والوهم . هذا المزيج الذي يؤمن المواساة والطمأنينة والأمل ؟ ايكون مطلوبا التضحية بالإنسان نفسه؟. إما في الشهادة أو بانتظار نهاية العالم مع عودة السيد المسيح والمهدي المنتظر .ثم الذهاب إلى العدم المحض. هل بلغت هذه النزعة البدائية في الإنسان حد التضحية بالله "سبحانه" من أجل لا شيء ؟ هل حجز هذا اللغز المتناقض من القسوة الأخيرة القصوى لإنسان الحضارة التقنية ولإرادة العدم !
ثمة سؤال يطرح نفسه بالحاح. الا تكون الديانات في العمق هي مشروع حرب دائمة دون هدف غير التضحية والاستشهاد؟ هل من الضروري أن يكون الدم هو الوجه الآخر للمقدس؟
لكل الاصدقاء ولكل المؤمنين
عيد اضحى مبارك وكل عام وانتم بخير

Fracassados

Vídeo mostra erupção vulcânica no Monte Sinabung, na Indonésia ...

Erupção Monte Sinabung, Indonésia, agosto 2020. 

Agosto, mês de explosões. Dia 4, Porto de Beirute, um depósito que armazenava nitrato de amônio. Rússia, dia 10, um posto de gasolina em Volgogrado. O vulcão Sinabung na Indonésia, inativo por séculos, até 2010, quando voltou a entrar em atividade. Em 10 de agosto de 2020, lançou uma nuvem de cinzas de 5km de altura. Coincidências, talvez. Curioso, pelo menos. Quando estamos todos in, para dentro, tantos ex, para fora. Explodere, fazer sair por meio das palmas, o significado original do latim vem do teatro, já que os maus atores eram expulsos do palco por meio da violência dos ruídos: gritos, vaias, palmas. Rejeitar. Golpear com os pés na dança, romper as ondas ao nadar. Precisei fazer essa costura, amarrações, para entender o imenso impacto desses eventos em mim.

Sou filha de pai Libanês. Beirute não é só um lugar exótico, é parte da minha herança.

Sempre fui fascinada por grandes forças, terremotos, tsunamis, vulcões. Quando era mais jovem, queria ser caçadora de tornados. Me entretenho com horas e horas de imagens de destruição, num misto de compaixão pelas vidas que são inevitavelmente afetadas, e de obsessão, assombro, pela pedagogia da tragédia.

Mas hoje minha vida é dançar, golpear o chão com os pés, romper as ondas do mar. Agradecer os aplausos, sofrer sua falta, fazer ruídos violentos.

Tantos ex, nesses dias in.

Parte da minha vida é dedicada a deixar de temer essa energia extrusiva, ‘para fora’, tão assustadora dentro do lar, na pequenez do meu corpo, das minhas tantas casas. Histórias infantis, paredes de palha, de madeira, de cimento. Qual delas irá resistir? E se o sopro vem de dentro?

As costuras da escrita, esses labirintos de crochê, me levam, quase sempre, ao útero, minha primeira casa, o dentro original, meu primeiro dentro. E o trauma do primeiro sair.

Diz-se que o amor é uma invenção, nascemos com ódio, e só! Com uma ânsia de vida que precisa de violência para se separar do corpo que nos nutriu. A grande explosão. Big Bang: assim começa todo universo, assim começou o meu. A fusão é essencial, mas quando não se rompe aquele fio, quando um ser se resigna a viver a fantasia do útero eterno, com as pernas encolhidas, sufoca-se em posição fetal. Morre ao tentar se acalmar, ao tentar se apequenar para ficar.

Eu, como boa menina, não saí com facilidade. Tive problemas com a raiva desde o útero. O medo de desagradar, todas aquelas ambições de espaços maiores, a arrogância de considerar aquele lugar acolhedor e orgânico, meu primeiro lar, inadequado à minha recém-adquirida grandeza. Até hoje não sei bem cuidar de uma casa, com medo de que vou destruí-la. Por não saber como sair, também não sei como ficar. Repouso e atividade em um enlace inescapável. Não se soluciona um, sem mergulhar no outro.

“[...] as imagens do repouso, do refúgio, do enraizamento, [...] todas elas sugerem um mesmo movimento em direção às fontes do repouso. A casa, o ventre, a caverna, por exemplo, trazem a mesma grande marca da volta à mãe.”

A Terra e os devaneios do repouso – Ensaio sobre as imagens da intimidade.

Gaston Bachelar.

Ninguém pensa na ira, na soberba necessária para sair da barriga. Não se fala muito disso, que os bebês não são inofensivos. De um dia para o outro, considerar-se apto a dar um salto evolutivo, respirar, viver na atmosfera. Pura e sadia arrogância. Depois, passar meses, anos, tentando se separar ainda mais, sofrendo para se contornar, defender suas próprias barreiras, sua ira como arma, contra esse retorno que se chama amor. Essa série de reparos constantes que fazemos ao destruir os laços, a cada segundo, quando viramos outra pessoa.

“[...] No empuxo da aceleração geral e da hiperatividade desaprendemos também a ira. [...] A ira, ao contrário, coloca definitivamente em questão o presente. Ela pressupõe uma pausa interruptora no presente. É nisso que ela se distingue da irritação. A dispersão geral que marca a sociedade de hoje não permite que surja a ênfase e a energia da ira. A ira é uma capacidade que está em condições de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo estado.”

Sociedade do cansaço, Byung-Chul Han.

As mitologias ao redor do meu nascimento são várias e confusas. Havia um cordão ao redor do meu pescoço, havia uma mulher, minha mãe, incrivelmente forte e inteligente, mas jovem e exausta, num mundo de mulheres exaustas, de autoridades que diziam que eu estava atrasada. Havia cirurgias e todos aqueles seres de jaleco que queriam ser capazes de dar à luz, com facas e anestesias. Sempre pensei que se tivessem me dado mais tempo, eu teria saído sozinha. Mas hoje em dia, percebo, em todas as minhas repetições patológicas, que eu ainda não existia. Esse corpo que não existe precisa que todo o universo conspire, que todo a história se alinhe. Esse corpo de mulher, que já se sabia rosinha, cuidador, paciente, podia esperar, devia esperar. Devia ficar. Ou, esse corpo de mulher, que está ali, a seu tempo, criando pulmões, esperando sua hora, precisa ser apressado. As duas fantasias me servem bem, daí a vantagem das fantasias.

“Imaginar será sempre maior que viver. O trabalho do segredo vai infinitamente do ser que esconde para o ser que se esconde. O cofre é um calabouço de objetos. E eis que o sonhador sente-se no calabouço de seu segredo. Gostaríamos de abrir e gostaríamos de nos abrir.”

Gaston Bachelar. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria.

Autonomia ou amor? Autenticidade ou submissão? Ex? In? Posso ir até aquele cantinho, engatinhando e ainda ser amada, cuidada? Ainda vou poder viver? Posso ir mais longe ainda e voltar sem retaliações? Na dúvida, fica-se. Talvez seja mais seguro. Se eu ficar, tenho controle. In-volução. Observo, então, atentamente, obsessivamente, qualquer sinal dessa mãe, dessa figura materna, desse pai que ela idealiza. Observo-os, estudo-os, sou uma espiã sem linguagem, ou sem língua, não sei. E crio inúmeras teorias, todas falsas, todas teorias do medo e da sobrevivência, teorias mínimas, como uma criança, pequenas, distorcidas. Testo suas reações aos meus desejos, às minhas ações, aos meus deslizes, e como um cientista incompetente, registro tudo que corrobora minhas fantasias invertidas de grandeza, de que minha raiva é destrutiva, de que os adultos são frágeis, de que eu posso cuidar deles.

Gaston Bachelard em ‘A terra e os devaneios do repouso’, argumenta que “a vontade de olhar para o interior das coisas torna a visão aguçada, a visão penetrante. Transforma a visão numa violência. Ela detecta a falha, a fenda, a fissura pela qual se pode violar o segredo das coisas ocultas. A partir dessa vontade de olhar para o interior das coisas, de olhar o que não se vê, o que não se deve ver, formam-se estranhos devaneios tensos, devaneios que formam um vinco entre as sobrancelhas. Já não se trata então de uma curiosidade passiva que aguarda os espetáculos surpreendentes, mas sim de uma curiosidade agressiva, etimologicamente inspetora. É esta a curiosidade da criança que destrói seu brinquedo para ver o que há dentro. (...) Não retemos senão a necessidade de destruir e de quebrar, esquecendo que as forças psíquicas em ação pretendem deixar os aspectos exteriores para ver outra coisa, ver além, ver por dentro, em suma, escapar à passividade da visão.”

A criança nasce mundo, ela é toda, ela é tudo. Quaisquer sentimentos e ações dos cuidadores são responsabilidade dela. A não ser que ela possa ser. E para isso, é preciso que esse ódio não seja temido. A criança não sabe nada sobre a guerra que estoura, sobre o luto, sobre a epidemia, sobre a misoginia. Ela mede: se pode ser, pode ir, pode voltar. Pode viver. Mas ir não é uma relação espacial, é uma errância subjetiva.

É preciso sobra existencial, gordura social, para que esse ódio seja absorvido. Para que essa curiosidade investigativa, violenta, seja vista como positiva. A criança é tão pequena e indefesa que teme matar, precisa delirar sua impotência. É tão louca que se pensa mais forte que toda aquela carne que a ampara, mesmo que mal. E talvez seja. Por que é pequena em matéria, mas uma fundura de sombras e medos, um terror para os adultos. Foi projetada para enlouquece-los com seu choro, com suas demandas. Amar é dar o que não se tem. É dar sua falta. Aceitar que o choro de um bebê ecoe naquele lugar sem peso que se aproxima da loucura.

Sheita Heti, no livro Maternidade (p.28), resume bem esse sonho de toda criança, de todo adulto:

“Este será um livro para evitar as lágrimas futuras – para evitar que eu e minha mãe choremos. Se, depois de lê-lo, minha mãe parar de chorar de vez, poderemos dizer que o livro foi bem-sucedido. Eu sei que não é o trabalho de uma criança impedir que sua mãe chore, mas não sou mais criança. Sou escritora. A transformação pela qual passei, de criança para escritora, me deu poderes – quero dizer que poderes mágicos não estão tão longe assim das minhas capacidades. Se eu for uma escritora boa o bastante, talvez possa fazê-la parar de chorar. Talvez eu consiga entender por que ela está chorando, e por que eu também choro, e minhas palavras possam nos curar.”

Não tenho crianças, mas já fui uma, e como todos os adultos, continuo sendo. E toda essa operação complexa de ser criança e adulto, num mesmo corpo, brincar e não se matar, arriscar, conhecer, e ainda garantir algum tipo de segurança e conforto, para que as próprias brincadeiras sejam possíveis, é dos desafios que mais me surpreenderam quando vi que a vida adulta não era nada como a fantasia que havia comprado na infância e adolescência. Não comprei à toa, claro, me foi vendida com um objetivo muito claro, matar a vida, matar esse ódio que é vida, essa ira que é separação, que é diferença, esse olhar violento que tenta quebrar os próprios brinquedos, tenta se quebrar e olhar para dentro. Essa ira de que falo, se fosse sentido, não se converteria tão facilmente nas violências cotidianas que vemos, contra tudo que demonstra ser buraco, ser vazio...tudo que não sou eu. Rupturas são violentas, e a violência, em seu devido lugar, é vital. Evita todas as outras violências deslocadas, da covardia, da projeção no outro. Bela violência de viver, sem precisar matar ou morrer. (Na maioria das vezes.)

Tenho várias lembranças da raiva, a mais curiosa, numa briga com uma de minhas melhores amigas no jardim de infância, para sentar no chão, no primeiro lugar da fila. Senti um vazio. Sentia a falta dela. Senti esse misto que chamam gozo, de um prazer com dor. De impor minha vontade, minha competitividade. E estar lá, só, no lugar que queria. Depois, voltamos a brincar. Eu com meu universo expandido, ela um pouco mais longe de mim. Sabia que teria que passar um tempo consertando as paredes do que havia destruído.

O amor seria, assim, uma reconstrução, não é natural ou instintivo. Sempre um ir de novo. Uma reparação. Retorno ao lugar do ódio, agora livre do medo de se afastar e se perder. Esse aconchego que só existe quando há duas peles, quando há um objeto que se encapsula, e cria o calabouço do seu próprio segredo. Cria o espaço ao redor de si para que outro venha com seu olhar, com sua curiosidade agressiva, no melhor sentido do termo. Não à toa, o ex de existir.

Amar é o privilégio do fracasso! O amor é para os bons cientistas.

 

 

Esse texto não é sobre dor. É sobre liberdade.

"Inez". Saul Leiter, 1947.


Acontece que eu não ando muito bem. 
Sabe quando você acorda num dia qualquer, e tudo parece fora de lugar? 

Esses dias eu li o texto de um psicanalista que defendia, com luvas de pelica, uma verdade inconveniente: a vida não tem sentido. Ok, é bem provável que eu não tenha entendido nada. E que alguém me indique filosofia. Mas não me importam, agora, as teorias consagradas.  

Por exemplo, eu conversava com uma amiga. É sobre uma coisa que contam pra gente: "seja melhor". E eu só consigo pensar: melhor pra quem? 

Acontece que às vezes reprimimos dentro de nós aquela vontade selvagem de xingar. Ou de dizer não em pelo menos 3 idiomas. Porque "minha mãe vai sofrer". Porque "não quero perder essa oportunidade". Porque: "quero ser uma pessoa melhor". 

Melhor pra que?

São tantos os tecidos jogados por cima de nós que a gente se perde embaixo deles. E, se eu não me conheço, quem é essa que apresento aos outros? 

É. Os outros quase nunca têm uma chance sequer. Falo mais dos adultos. De jogar um "não" em direção a alguém e ver ele ser transformado em algo bonito. "É um verdadeiro ato de amor", diria meu analista. Acontece que nos iludimos sobre nosso poder sobre os outros [embora, pasmem, sejamos seres perfeitamente superáveis]. 

Ao mesmo tempo em que... não é fácil se despir. Separar aqueles tecidos que nunca vestiram lá muito bem. Reconhecer aqueles que, ao contrário, se fundiram à nossa pele. E acolher aqueles que já acompanham a gente tem tanto tempo... às vezes, antes de nós, na ancestralidade. 

Acho que não há nada mais difícil do que se respeitar. Culpa. Mas "haverá pior solidão do que a ausência de si?"

E tem aquelas morais inquestionáveis. E tem aqueles valores que sempre defendemos. E tem também aquela sentença: "a vida é assim".

Mas olha só. Eu trago uma verdade conveniente sobre essas universalidades. E eu acho que você já sabe: elas nasceram de uma meia dúzia de homens. Brancos. E, cá entre nós, elas não são muito mais do que instrumentos para domesticar. Controlar o corpo das mulheres, como tantas já gritaram nas ruas e na cara dos homens universais. Controlar os corpos. E não existe valores iguais para corpos diferentes. Uma outra materialidade exige uma outra consciência. 

Mas, olhe. É mais do que isso. É sobre acreditar no que te dizem sem antes se perguntar, assim, honestamente: melhor pra quem? É sobre encontrar em cada dia aquele lugar em que você se reconhece, intimamente - então essa é minha criança! - e ir gastando o tempo nisso, tempo com ela. 

Quem sabe se pararmos de escutar por alguns instantes, se silenciarmos um pouco... Talvez esse seja um primeiro passo para a nudez. Se despir pode ser revolucionário. 

Eu vi um filme esses dias. 
Um garfinho diz a uma faquinha: -- "Fique calma, eu vou te explicar tudo". 
Ao que a faquinha pergunta, sem hesitar: --"Por que estou viva?"
E ele responde: -- "Não sei." Um ato de amor.

Então. Que seja a vida só o espaço entre a concepção e a morte. Mas quando estivermos todos apodrecendo debaixo da Terra, dentre um vasto amontoado de ossos, vou gostar de pensar que faço parte daqueles que, quando em vida, se despiram e se apresentaram muito nus, primeiro, para si mesmos; e depois para os outros. 

Gastar esse tempo, tão breve que é, carregando a beleza, a leveza e a potência da minha total insignificância.

Poda


Scordinia - inflorescências

Sempre tive dificuldade em cuidar de plantas, mas, por alguma razão, achava importante ter essa graduação da natureza, que me mostrasse que sou capaz de cuidar de uma vida estranha, que não a minha. A falta de antigos círculos de mulheres, de contato com crianças, gravidezes, mortes, me afastava de uma forma incomoda dos ciclos da vida. Não à toa, quis ser bióloga, achei que a vida  estaria ali. Mas é claro, não estava, por que fomos banidos, como no paraíso de Milton, dessa plenitude, da falta de consciência da morte, da entrega plena aos instintos. Há cultura, há linguagem. Estamos tão longe daquela tribo, daquela comunidade. Aprendi a aceitar que certas plantas morrem nas minhas mãos, não porque eu não consiga compreender do que precisam, mas por eu ser incapaz de aceitar suas necessidades, sua fraqueza e sua carência, suas demandas sobre mim. A hortelã sempre precisou de muita atenção - tanta rega, todo dia, aquele olhar desapontado, murcho, precisando de mais, de algo que eu não conseguia dar. Por acidente, percebi que a poda radical é um cuidado, algo necessário, que eu era capaz de fornecer, com prazer. Vi plantas que achei mortas, das quais podei todas as folhas num instinto egoísta de retirar da minha vista tecidos amareladas, murchos ou doentes. Não esperava muito. Não esperava nada, só sentia prazer em mutilá-las; retirar-lhe as folhas, os galhos, as flores secas. E para minha surpresa, algum tempo depois, rebrotavam com tanta vitalidade, como um presente, mostrando que minha fúria lhes dava força, minha falta de tato lhes trazia vida. Espero que eu venha a ter um filho um dia, e seria feliz com essa noção de maternidade. Pois a natureza é muito maior do que eu. No dia em que percebi isso, fui tomada por uma vontade súbita de cortar os cabelos, curtos, em casa, a seco, confiando que uma força dormente ganharia espaço, e novos seres brotariam em mim. 

Corpus Christi

Kitagawa Utamaro

Esses rios de ar, de água, não me deixam parar. Atravessam uma carne que resiste. A realidade dela mesma é um limite, ela é um limite, a carne, que concentra o desejo em feixes contráteis, capazes de prazer, de lutar contra a dissolução no prazer absoluto - a morte, a loucura. As duas me atraem, permitir-se ceder, sair do mundo dos homens, de suas crises e contradições. Sair do mundo dos vivos, de suas moléculas entrelaçadas, dependentes, sofríveis. Existência plena, mineral.
Ídolos liberam em minha direção fios de aço, que se agarram em meus punhos para que eu possa descansar, enquanto o resto desse corpo é arrastado e minha cabeça rachada sangra.
Única forma de dormir, sono sem si.
Sono piedoso que liberta dos desejos. Desejos que giram roldanas, cordas e polias lubrificados com graxa preta, dentro do meu estômago. Cria sons impossíveis de violino, em uma carne ensanguentada - bile, gordura, ácidos e animais não digeridos. Mas as cordas soam como linha tesa, fio cortante. É duro suportar essa perpétua excitação nas extremidades, nos membros, no útero, no pescoço, na língua, nos lábios - todos eles-, nos nós concentrados de eletricidade que se acendem como vaga-lumes, em um triângulo quente que brilha entre minhas coxas.

É um mundo perigoso para pulsões fluorescentes, femininas, atraindo a atenção de predadores. Há que se contar com a proteção desse veneno próprio dos animais aposemáticos, que brilham cores vivas contra listras escuras, pois podem matar. Habilidade necessária, saber matar, com a própria carne, macia; sem dentes, sem garras. Evoluir esse veneno que liberta da camuflagem. Em algum momento um animal deve decidir que estratégia aprimorar para sua sobrevivência: forjar todas as cores opacas da floresta, das folhagens, do fundo do mar e, junto com o resto da matéria, assentar-se com as plantas, os fungos e os animais, em tons de marrom e verde; ou sintetizar venenos em sua pele úmida e brilhante. Há algo de sensual nas duas escolhas: a discrição da fusão com o ambiente, perpétua orgia esverdeada; e o apelo do objeto que se permite devorar pelo olhar, alimentando o desejo e sufocando-o, simultaneamente.

Cada animal sonha com aquilo que perde, ao ceder-se para a vida.

O vislumbre de uma mordida verde fluorescente penetra os sonhos de famintos seres marrons, que se debatem ao perceber que mordiscam carne proibida.

Uma cobra reluz na espera de outras peles venenosas para tocá-la sem risco de morte, penetrá-la neutralizando perigos, fazê-la sentir-se inofensiva.

Fábrica de senhoras, fábrica de mulheres

Sarah Pierroz_Painting_Women and Pain Thesis Series_We Do Have Names.jpg
Women and perceptions of pain, Sarah Pierroz.

Vejo corpos de mulheres jovens, envoltos em mortalhas, sendo jogados pelas janelas de altos edifícios antigos, por mulheres anciãs, detentoras de uma espécie de tecnologia da feminilidade, mulheridade.
Corpos mortificados, envolto em panos, corpos de pano.
Em oficinas clandestinas de costura, mulheres velhas e suas linhas, dia e noite tecem a humanidade, 
ou a metade fodida, com vagina. 
Novos corpos empalhados, que aceitam ser lançados por vidraças abertas, escancaradas, para ganhar o direito de entrar em uma antiga ordem, para ser mulher, como é possível, aceitando a própria morte, fria e fabricada, holocausto eterno de úteros carcomidos pelo excesso de outros, excesso de filhos, ou a falta deles.
Há uma única questão. A maior questão do mundo, que são duas e uma só.
Eu estou viva?
Eu sou mulher?

Quem são essas fêmeas de pele dura, escura e calcinada? Exercem atos de horror, em um consentimento passivo, que ao longo dos anos se engrossa em certezas, descama teorias e racionalizações moribundas.
Como se justifica uma vida mortificada? Como somos capazes de sufocar algo tão singular, forjado em bilhões de anos de acaso e contingência?
Entendo que os homens sejam guerra e morte. Mas não as mulheres. Como cedemos a esse vórtex mentiroso, vergonhoso, que busca esmagar o mundo sem qualquer requinte, por mera força. Nós que expandimos e contraímos diariamente, que somos pulsáteis, cíclicas. 

Ainda bebês, meninas, olhamos para cima, para montanhas de carne e pele e seios, que do alto de uma estranha hierarquia se alimentam do desejo das meninas indefesas de não estarem sozinhas, de sua fé cega, de criança, em um caminho e um destino que tornem menos assombrada essa estrada que leva aonde? Uma trilha noturna, de capuzes vermelhos e ameaças. Deve-se morrer, não respirar, pisar leve, ser leve, não comer, não ter, não ser, não. A palavra mais dita.

Para onde foi a alegria de ter um inconsciente perpetuamente cheio, fazendo pressão, como a água contida em uma barragem repleta de pequenas rachaduras, que criam minúsculas cachoeiras, e, vez ou outra, arco-íris. Sem medo do esgotamento da criatividade por conta do acesso ao real, ao nu do ser, que não existe. Celebração das cisões eternas que nos distanciam do tédio do paraíso. Esse mistério, região obscura, campo do brincar e do medo.

...mas elas seguem tecendo a humanidade, ou a metade fodida, com vagina. Fodidas por serem espaço oco, muscular, de encontro entre corpos, orifícios; esse túnel escuro, território sagrado, jerusalém dos sofridos. Pouco importa a manutenção de linhagens ou heranças, o pavor vem da erupção de ameaças de alteridade, que sobem quentes do inferno, mostrando a inegável penetração de quem penetra, em um outro, que deve se manter outro, para que o sexo não seja uma farsa ou piada.

Por isso, as mulheres devem morrer. Por isso as mulheres morrem. 
Não comer, não ter, não ser, não. A palavra mais dita.

Insegurança


Ela consegue subir, apoiando-se na água revolta, engasgando salgada, a espuma assassina. Era um afogamento. Ela. Sozinha. Perdia a vida. A achava.  Perdia novamente.

O mar é calmo.

Afunda como rocha, é cuspida com repulsa. Apoia-se na espuma, uma vez mais, e avista, ao longe, uma onda sobrenatural, que nunca se formaria em alto mar. Não daquele jeito, curvatura perfeita, projeção afiada pronta para cortá-la ao meio. Acena lá do céu; fala com ela. Não sente o golpe, vira chumbo e quase se deixa. Lembra-se pequena, presa em uma sequencia ininterrupta de ondas. O mar não respeitou o acordo, estava abaixo do umbigo, e mesmo assim se vingou, de sua pequenez, insensatez. Onde esta minha mãe?

Nunca se esqueceu. Aprendeu a amar desse jeito. Amou sua mãe, amou o mar. Sem nunca confiar. Assim é que se deve ser. Seguir uma natureza inegociável, energia, movimento. A quebra de acordos, traição.
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Caminha agora. Para a porta, em sua casa. Deve-se fecha-la antes de dormir. Fechar janelas, portas e frestas. Mas há um espectro branco, que quer (?) que precisa (?) que gostaria (?) de entrar.

É um fantasma, de uma velha, uma mulher, com entranhas que se deslocam, somem e reaparecem em seu abdome inchado de parasitas. Frente à última porta, a que finalmente deixaria sua casa segura, ela paralisa.

Onde está meu pai?
Estão todos dormindo.
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Observa agora,  a onda, a mesma, de uma edifício muito alto. Distante. Está segura. Mas onde estão meus irmãos? Ao mesmo tempo sabe que estão vivos, muito longe dali, mas podem tão bem estar mortos, lá embaixo, onde a onda passou. Sente respingos, está há alguns metros desse desastre.

...Espera o recuo....




Areia movediça


De onde vêm as pressões que sinto? É contra a natureza do mundo ou contra a minha que luto? Não consigo me debater desesperadamente; acho que me assusto com essa calma. Se for paz, o que duvido, devo aceitar. Devo aceitar? 
Fico dividida entre aceitar a paz como uma conquista, de uma maturidade que já percebe quais são os medos que merecem sobressalto e não mais se assusta com insetos menores, ou se, estupidamente, defrontada com uma tarântula negra, em tapete de pelos, não posso me mover. Por pavor, por não compreender a areia movediça na qual me coloquei, fui colocada, cai. É mortal um engano. Aceitar a paz quando em risco de morte, debater-se em areia movediça.  
Já ouvi, não consigo esquecer: “quando em dúvida, espere”. Veja além das seduções e dos medos. Reconheça-os. Não aja em seu nome. O que é esse motor interno e como reconhece-lo? Realmente é uma aventura difícil fazer algo diferente, realmente distinto do que a natureza e a cultura impulsionaram por tantos anos: dobrar um pano de prato, lavar um copo com a quantidade de sabão usada por outra pessoa, fazer movimentos circulares com toda a concentração de um sábio ao limpar as paredes...mas não por um novo mandamento, simplesmente mudar porque não há mais opção, porque se foi encurralado por sua própria busca, suas próprias investigações a um beco novo, com uma única possibilidade, sair. Estou eu nesse beco? Relutando contra mim mesma, essa entidade fantasmática, negra, espectral, que tenta me empurrar? Não me movo porque só há queda, um vazio desconhecido abaixo dessa plataforma de granito negra e fria, nesse quadrado estreito onde sento, nua, acreditando que posso me salvar? Esse vazio sou eu? Ou esse vazio é do mundo? 
Sou incapaz de criar sentidos? Fui marcada a ferro com uma lacuna tão fundamental quanto esta? Não à toa que a mãe, minha mãe, é uma entidade tão misteriosa, assustadora, oca e negra. Um abismo. Que anda a meu lado...Tantos querem que isso seja a condição humana, para não serem forçados a reconhecer que algumas pessoas não apresentam um buraco negro palpitante em seus peitos, que suga tudo, todos os esforços de sentido e alegria. Não é bem uma tristeza, não é bem ruim...mas demanda isolamento por sua força, pelo receio de sugar tudo de belo que resta lá fora, retirando seus sentidos como um tornado. Vive-se da esperança, de fé, de que há sim possibilidade de salvação, de luz. Isso só com as simulações de úteros, de cavernas, de fossas submarinas. Na vida, solidão. Não completa, não trágica. Um vazio acalentador. 

A anorexia infantil e as portas de vidro

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Em crônica contundente, escritora, artista e fotógrafa norte-americana relata doença da filha e revela como tornou-se onipresente associação insana entre sucesso e corpos “bem-feitos”
Por Maissa Bakri
À primeira vista, isso não seria de ser esperar em uma família como a de Kristi Belcamino: desde o dia em que deu à luz a uma menina, a palavra “dieta” foi banida das conversas da casa. Não se assinavam revistas de moda e a televisão era monitorada de perto. Daí se justifica seu espanto ao perceber que sua filha, com apenas nove anos de idade, estava anoréxica, pesando 22 quilos. Em uma crônica contundente para a revista norte-americana Salon, Kristi relata seu choque ao descobrir que a anorexia não respeita as portas nem dos mais conscientes lares.
Em meio ao tratamento da filha, Kristi descobriu que cerca de 10% dos que sofrem de anorexia nos Estados Unidos têm menos de dez anos de idade. Embora fosse constantemente lembrada de que não há um método de criação dos filhos capaz de prevenir a doença, a culpa não a abandonava. O tratamento de quadros anoréxicos é um processo longo e incerto, já que, além das restrições alimentares, as pessoas que sofrem de anorexia, com seu medo mórbido de engordar, não só restringem a ingestão de alimentos, mas fazem uso de medicamentos como laxantes e diurético, induzem o vômito e praticam exercícios físicos vigorosos. Para o alívio de Kristi, sua filha ainda não sabia que era possível vomitar para se livrar da comida, mas tentava queimar calorias em sessões frenéticas de dança irlandesa em seu quarto.
Depois de tratamento intensivo, a filha já está fora de perigo, mas não é possível afirmar que a batalha tenha sido vencida. Por mais surpreendente que possa parecer a ideia de que a anorexia infantil adentra sem pudores um lar como o de Kristi, devemos nos perguntar: seria de se esperar algo diferente em uma sociedade onde o discurso disseminado pela indústria cultural e pela publicidade associa beleza, saúde, sucesso, felicidade e poder à corpos magros? Por que iríamos achar que, ao fechar nossas portas de vidro, tudo ficaria bem?

De Patologias e Ficções

Publicado em Outras palavras, em 25/09/2013
http://outraspalavras.net/posts/de-patologias-e-ficcoes/

Kirsten Dunst (Justine) em cena do filme "Melancolia" (2011), de Lars von Trier
Kirsten Dunst (Justine) em cena do filme “Melancolia” (2011), de Lars von Trier
Quando estresse e depressão tornam-se epidemia, cura cabe a indivíduos, médicos e medicamentos? Ou caberia aliviar o mal-estar da civilização?
Por Maissa Bakri
No filme de Lars von Trier, Melancolia se refere tanto a um planeta que aparenta estar em rota de colisão com a Terra, quanto ao estado emocional de Justine, o qual Freud descreveu como um abatimento profundamente doloroso, marcado pela cessação de interesse pelo mundo exterior, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda a atividade e a deterioração da auto-estima, culminando numa delirante expectativa de punição.
Em resenha para o The New York Times, A. O. Scott considera essa expectativa de punição umas das razões pelas quais as pessoas assistem aos filmes de Lars Von Trier. “O sofrimento – predominantemente, mas não exclusivamente, o sofrimento das mulheres – é tanto seu assunto favorito quanto seu método preferido.” A aproximação do planeta Melancolia reverte qualquer expectativa tradicional, tornando difícil argumentar contra o fatalismo e a depressão de Justine, que encontram ressonância frente à possibilidade iminente de aniquilação global.
Curiosamente, dois aspectos centrais do filme de Lars von Trier – a melancolia e o sofrimento das mulheres – se relacionam com o artigo “Quando a tristeza se tornou uma doença? Como patologizamos a vida cotidiana”, publicado no AlterNet. Diane Cole analisa dois livros recém-lançados, ainda sem tradução para o português, que questionam a expansão e consequente erosão dos conceitos de depressão e estresse, a ponto de se tornarem virtualmente insignificantes em termos de diagnóstico e tratamento.
Embora Melancolia pareça um termo antiquado e ultrapassado, Edward Shorter, professor de Psiquiatria e História da Medicina da Universidade de Toronto, Canadá, advoga por sua reabilitação. No livro How Everyone Became Depressed: the Rise and Fall of the Nervous Breakdown, Shorter demonstra como viemos a entender e utilizar de forma equivocada o conceito de depressão, em grande parte devido à ascensão dos antidepressivos e, principalmente, em função das constantes reinterpretações da depressão ao longo das cinco edições do Diagnostics and Statistical Manual (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria.
Brigas políticas entre as diferentes facções encarregadas de definir enfermidades no DSM desfiguraram o significado de uma doença real do corpo e da mente. A depressão é uma doença reale muito séria, ele argumenta, não devendo ser diagnosticada tão promiscuamente. Shorter defende o uso do termo melancolia para diferenciar este estado da depressão severa que afeta corpo e mente, apresentando sintomas que vão além de flutuações de humor e “podem levar ao desespero, completa falta de prazer na vida e suicídio”. Ao cindir dois tipos diferentes de depressão, acredita ser possível ajudar os médicos a refinar seus tratamentos.
Tão sombrio quanto a depressão, o estresse vem sendo nomeado de “peste negra do século 21″. De acordo com relatório do Chartered Institute of Personnel and Development, o estresse já configura a principal causa de afastamento prolongado do trabalho no Reino Unido, superando derrames, ataques cardíacos, câncer e problemas na coluna. Mas o que é o estresse? Quais são suas causas e seus impactos na sociedade?


O segundo livro analisado por Dana Cole em seu artigo é One Nation under stress: the trouble with stress as an idea, de Dana Becker, professora de Serviço Social na Bryn Mawr College, nos Estados Unidos. Para Becker, encarar estresse como uma ansiedade que se origina de dentro, ao invés de vê-la como reação a pressões externas subverte o sentido histórico original da palavra. Becker cita o neurologista americano George M. Beard, ao afirmar que as pressões da vida moderna estavam forçando as pessoas além dos limites de energia que possuem. Beard provavelmente não ficaria surpreso ao ver o caso do jovem alemão Moritz Erhardt, possivelmente morto por excesso de trabalho.
A questão central na análise de Becker é: não seria responsabilidade da sociedade formular políticas públicas e sistemas de seguridade social que ajudem a diminuir os estressores sociais e econômicos que estão sobrecarregando as pessoas? Ela cunha o termo estressismo para descrever “a convicção atual de que as tensões da vida contemporânea são principalmente problemas individuais de estilo de vida a ser resolvidos por meio do manejo do estresse, em oposição à convicção de que essas tensões estão ligadas a forças sociais e devem ser resolvidas principalmente por meios sociais e políticos”.
Um exemplo do que Becker chama de estressismo é a ideia de que as mães que trabalham fora de casa devem aprender a lidar com seus múltiplos papéis, além de manejar o estresse gerado pelo acúmulo de responsabilidades profissionais, no cuidado com os filhos e com a família, para manter a própria saúde e se manter em dia com as exigências estéticas. Esse estereótipo é tão disseminado e glorificado que fica fácil esquecer a suposição que está por trás: manobrar múltiplos papéis é um problema principalmente das mulheres, não dos homens, ou da família, ou da sociedade.
Para Cole, os dois autores alertam para o perigo de se perder a noção do impacto das pressões sociais e econômicas que vivemos. Pressões estas que, se fossem enfrentadas, poderiam promover mudanças efetivas e melhor qualidade de vida para toda a população – talvez, especialmente para as mulheres.
Vivemos um cenário no qual, ao mesmo tempo em que doenças reais estão sendo soterradas por uma enxurrada de distúrbios inventados, eventos que fazem parte da vida e características individuais ou de grupos (etários, de gênero, de orientação sexual) se tornam patologias.
Infância, menstruação, gravidez, parto, menopausa, timidez, luto, gula, masculinidade, feminilidade, impotência, sobrepeso, tristeza, criatividade, expressividade, alegria, rebeldia, questionamento de autoridade. Nesse crescente fenômeno de patologização da vida, as doenças estão se tornando ficções lucrativas nas mãos da indústria médica e farmacêutica e armas convenientes para garantir o controle social e a subordinação às injustiças e desigualdades.
É difícil evitar comparações com a Melancolia, planetária e pessoal, retratada por Lars von Trier. No mundo da não-ficção, tanto o abatimento profundo da depressão enquanto doença real como o sofrimento causado por estruturas econômicas e sociais opressivas, especialmente para as mulheres (e os pequenos que cria), estão sendo negligenciados. Talvez a colisão planetária que nos assombra seja justamente a realidade que vivemos na Terra.

A agonia de eros


[…] El amor es una conclusión absoluta porque presupone la muerte, la renuncia a sí mismo. La “verdadera esencia del amor” consiste en “renunciar a la conciencia de sí mismo, en olvidarse de sí en otra mismidad”. La conciencia del esclavo hegeliano es limitada; él no es capaz de la conclusión absoluta, porque no tiene capacidad de renunciar a la conciencia de sí mismo, o sea, no es capaz de morir. El amor como conclusión absoluta pasa a través de la muerte. Ciertamente se muere en lo otro, pero a esta muerte le sigue un retorno hacia sí. Y el retorno reconciliado desde el otro hacia sí es todo menos una apropiación violenta de otro, que falsamente ha sido elevada a figura principal del pensamiento hegeliano. Es más bien el don del otro, al que preceda la entrega, el abandono de mí mismo. El sujeto depresivo-narcisista no es capaz de ninguna conclusión. Y sin conclusión todo se derrama y se esfuma. Así, este sujeto no tiene ninguna imagen estable de sí mismo, que es también una forma de conclusión. No es casual que los síntomas de la depresión incluyan la indecisión, la incapacidad de resolución. La depresión es característica de un tiempo en el que, por exceso de abrir e deslimitar, se ha perdido la capacidad de cerrar, de concluir. Desaprendemos a morir, porque no somos capaces de concluir la vida. También el sujeto del rendimiento es incapaz de cierre, de conclusión. Se rompe bajo la coacción de tener que producir cada vez más. […]


La agonía del Eros, Byung-Chul Han.




Transgressão

Jerek Kubicki
Só há mulher na descontornar. De uma linha invisível, um limite ideal, um destino de carne, a que se pode decidir, nunca conscientemente, adequar-se ou desafiar. Há mulheres gordas, cheias de substância - pele, gordura, músculo, osso, sangue - que não parecem transgredir o espaço, esse é seu traçado, essa linha alguém traçou em seu lugar, no início dos tempos, neste século, ou desde a primeira explosão estelar.
Há mulheres, outras, muito magras, que se rebelaram e, com coragem, descolaram-se de qualquer determinação sobrenatural ou genética que as submetem a ocupar espaços sufocantes, os quais não querem adentrar. São intrigantes, pois transparecem a falta, algo que escapa, deveriam ter mais; mais ombros, mais coxas, menos nariz, dedos mais longos. São aquém.
Há mulheres imensas, com bundas grandes, barrigas salientes, peitos enormes, que claramente desafiam uma herança genética, uma família invisível, a cultura da fome. Fascinam pela propriedade com que caminham, pela voz que ressoa em toda essa carne em excesso, pelo esforço que fazem para ser além.
É muito difícil determinar a transgressão. Talvez não seja absoluta. Não está no transbordar, no espaço que dilaceram com seus corpos, mas na sua decisão de se afastar, com muita dor e contorções, desse traçado feito por um artista indiferente a qualquer desejo de mulher, a qualquer noção de brincadeira a qualquer vislumbre de um abismo. Além e aquém de qualquer entendimento.

Sons negros: sedução

Sob a pele, 2013, de Jonathan Glazer.

Parece nome de filme ruim, mistura de sexo e horror. O que não deixa de ser verdade. Certa vulgaridade. Pensando sobre a sedução, visualizo imagens perturbadoras, que afetam meus órgãos; apertam glândulas, em desespero de excreção. Impõem-se sobre mim imagens, noturnas, de teias, silêncio, presas e uma aranha, grande, mas de pernas finas e alongadas, que se dobram em sua articulação maligna e tocam, quase sem peso, fios muito delicados, dos mais resistentes.
Em sua aproximação sobrenatural à presa - imponência que resulta da confiança em sua própria tecnologia, mesmo que não se possa reivindicar mérito – há um espaço, uma falta, um vazio, que se espera preencher pelo devoramento de um inseto indefeso, completamente rendido, que não mais se debate, e se entrega ao prazer da morte.Sedução é estar nesse lugar, com a mais profunda presença, sem saber que papel se está desempenhando: presa, predador ou teia.

Cronofagia - o tempo é feminino

O recente episódio do estupro coletivo da adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro reacendeu uma das batalhas mais sangrentas das mulheres contra o sistema patriarcal, a luta pela integridade de seu corpo. As furiosas investidas religiosas e retrógradas na legislação do aborto, a naturalização e espetacularização do estupro e do feminicídio, a erradicação física das mulheres dos ministérios, a valorização do recato e da subordinação pela mídia, são episódios recentes que se inserem em um panorama sombrio, de retrocessos imensuráveis.

Quando me deparo com esse cenário, penso nos homens. Não como indivíduos, mas como ideais, de algo que não consigo alcançar concretamente. Penso nos motivos que os levam a restaurar uma honra perdida, na angústia necessária para mover tamanha violência, nas demandas doentes por provas de masculinidade, nas surras levadas na infância, no medo de não ser forte o suficiente, no pavor da impotência, de perder algo que nunca foi seu, nem de ninguém. Preocupo-me bastante com essa cultura patriarcal e falocêntrica, da força e da velocidade, pois os mais vulneráveis são sempre necessários, como instrumentos, objetos de um gozo mórbido, um dos poucos que restaram, as mulheres e as crianças, para aliviar a sensação de impotência dos homens quando a vida lhes foge do controle. Quando perdem guerras imaginárias, sofrem humilhações diárias, perdem seu reflexo no espelho, perdem seu emprego, perdem sua honra, somos sempre uma forma doentia de reencontro do homem com sua face mais abominável, aquela, fálica, que não aceita limites, que não sabe se abrir ao mundo, à diferença, ao outro, aquela que não compartilha, não escuta e não se entrega, nem ao sofrimento, nem ao amor.

Digo homens como ideal, pois em muitos momentos, em muitas instâncias, as mulheres não se distinguem dos homens, são, talvez, limitadas por sua força física, e pela cultura que as desencoraja à violência, mas abusam de seus filhos, os espancam, pois as crianças são para elas aquele poço onde se pode, nunca sem dor, reaver um pouco de sua honra perdida. Criam homens ideais que irão restituir a elas tudo que o mundo lhes deve, serão seu braço armado, não de todo incompreensível nesse mundo que lhes traz sofrimento diário, as desvaloriza, as abandona e as violenta. Odiarão suas filhas, de forma sutil, de forma constante, por seus excessos de sexualidade, ou por sua falta, transformarão meninas em homens, e homens em super-homens. Mulheres adultas condenarão suas irmãs ao fogo que pune, ao estupro que corrige, à gravidez que purifica, por sua autonomia e liberdade, por suas escolhas e por sua sexualidade. Pois, infelizmente, o ódio às mulheres, e ao feminino, não discrimina, alastra-se com leveza e gosto, saltando por classe social, gênero, contexto cultural e período histórico.

E os homens adultos, pais, tios, amigos, que direcionam sua energia à conquista do mundo, à ascensão das ladeiras artificiais do capitalismo, são figuras ausentes, fantasmas, que com sua ausência ensinam muito mais do que imaginam. Ensinam o que é ser um homem de família, o que se valoriza em nossa cultura, de quem é o papel de cuidador, quem tem status, ensinam que homens estão pouco disponíveis para os outros e que são capazes de roubar o tempo para si. Os homens, enquanto fantasmas são cronófagos; em sua violência comem o tempo, feminino, de forma antidemocrática, tomam o tempo para si, enquanto reclamam de excesso de trabalho. Tomam o tempo para a construção de um ideal vazio, sem substância. Um ideal masculino, um ideal de poder e invulnerabilidade. Não são eles que levam os filhos doentes ao médico e perdem dias de trabalho, não cuidam do mundo, nem deles mesmos.

O tempo é feminino, anda com autonomia, sem se importunar com a ansiedade, com a fome, com a vida e a morte. O tempo é feminino, pois aceita o que é, e se rende, não se abala em sua caminhar. É devorado por homens em nossa sociedade, pois o tempo é livre, e os desafia, a cada minuto, a cada respirar.

Três mulheres

Amy Kutler,  Above the Fjord, 2010.

Neste Dia das Mulheres, sinto saudades. De três mulheres que estão longe, partes de mim exiladas, no tempo, no espaço.

Minha avó, de quem lembro a cada vez que lavo alfaces. Ela gostava de comer aqueles pequenos brotos cheios de folhinhas crocantes, embaladas como um presente pelas folhas maiores. Confesso que as alfaces ainda me são um prazer amargo, mas sei o que é um alimento de verdade.

Minha irmã, que com seus olhões verdes sempre ganhava de mim quando competíamos para ver quem aguentava mais tempo sem piscar. Sinto que aprendi algo sobre meus limites, sobre a raiva e a vontade de ganhar, mas aprendi mais sobre o prazer de ver o mundo, de olhos abertos, sem medo, até que caiam lágrimas de excesso de olhar.

Minha mãe, que enfrentava os chiliques mais agudos e desesperados toda vez que tinha que passar merthiolate no joelho dessa filha que não parava de dar estrelas no quintal. Sei que esse cuidado me permitiu dançar, cada dia mais, cada dia com menos receio e mais afinco, certa de que algo iria me curar caso meus desejos de movimento superassem as habilidades do meu corpo, produzindo escoriações, dores e frustrações, que podiam ser cicatrizadas, mesmo que à custa de mais dores e gritos desesperados.

Sinto falta dos infinitos detalhes dessas mulheres, que borbulham em mim; essas partes estranhas, exógenas, que não se integram totalmente, mas nunca vão se dissolver, nunca vão se desprender de mim. Fico impressionada como a vida pode ser tão criativa, compondo detalhes tão bonitos, de três mulheres tão complexas. Vejo que esses detalhes estão aqui, em mim, nesse dia, nessas palavras, talvez lidas por outras mulheres, atingindo algo nelas, em uma rede tão antiga quanto a primeira gestação, a primeira mulher que dividiu seu corpo com outra. Em face aos tantos problemas que vivemos hoje, fico tocada pela beleza disso tudo. 

Sobre a maldade

Etsuko Fukuya
Hoje não pude sustentar a beleza do dia. Não fui capaz de refletir o bom humor do tempo. Esgotei-me antes do pôr-do-sol. Talvez porque tive uma manhã de comunhão com as forças da natureza, em um ímpeto de perseguir borboletas. Pequenas e sedosas; delicadas borboletas brancas e amarelas que ziguezagueavam em um jardim improvisado dessa cidade de chumbo. Por um momento, pensei em tocá-las, só porque eram belas, só porque expiram em um dia e voam com tanta leveza; porque oscilam no ar, traçando caminhos não lineares, pouco eficientes, só para aproveitar todas as dimensões que o céu lhes dá. Faltam-lhe forças, por isso cedem aos menores caprichos das correntes quentes que emergem do subsolo. Cedem felizes, contudo, pois não há opção; sua impotência frente ao mar de moléculas que é seu meio as liberta.


Sempre tive aversão aos insetos que voam. Os únicos que tolerava eram essas borboletas frágeis como papeis de seda. Nunca suportei a visão das nervuras e segmentos dos insetos maiores, com pés e antenas proeminentes e o poder de voo das asas avantajadas. Acabava envergonhava dos pulos e corridas desesperadas que meu corpo dava, vergonha a que os adultos não mais se sujeitam quando defrontados com os próprios medos. Dizem que as fobias encarnam um horror inominável. Nas asas asquerosas das mariposas, em seu corpo gordo e peludo se projeta um horror primordial; horror da dissolução no éter e no caos pela ruptura de uma lei cruel e sobrenatural. Sinto esse medo especialmente nas manchas pretas e cinzas desses bichos nojentos. É um abismo intransponível, um asco incomparável. O que se condensa nesse inseto alado o deixa pesado como uma estrela morta, tornada buraco negro. Vejo mariposas obesas jogadas nas calçadas, com seu ventre gordo e hirsuto esperando para ser esmagadas por um pedestre qualquer, com sapato social, que nada teme porque transformou o horror em purpurina e luzes de natal. O horror condensado não se sublima com a morte de uma libélula ou de um besouro. Já matei um ou outro. Dele não se foge com a prisão de pobres, a exclusão de estrangeiros, a matança de etnias, o estupro de mulheres ou a destruição da natureza. Dele não se foge. Dele não se foge. 

Tempo

Etsuko Fukaya

O que é a vida se não pêssegos maduros, suculentos; uma mescla de vermelhos alaranjados, penugem suave, sem sulcos de desidratação ou cores de prematuridade. Nem pequenos demais, nem inchados de dor. Reais, crescidos até seu limite, caídos do pé quando o corpo pesado se separa do ramo, sem esforço ou brutalidade. A impotência é amiga do homem. Ao tentar lutar contra o tempo das coisas, as matamos, mesmo que sua matéria esteja ali, crescendo forçadamente, ultrapassando os limites das frutas, dos animais e dos humanos. Mortos-vivos, alimentando-se de vegetais e animais além do tempo, em um universo paralelo em que não há pausa e não há espaços entre seres e suas ações. Um mundo cubista de bocas alienadas, caindo sobre pêssegos artificiais, narizes que não sentem o aroma da pressa, pessoas sobre pessoas, ações justapostas umas às outras.
Dentro de um quadro, uma moldura pesada, barroca, dourada. Aos poucos se consome todo o ar, pois esse pintor não pode parar de preencher espaços. O vazio come a carne de todos. E a arte (não) nos salvará.

Anjo do Lar



Em comemoração aos 106 anos de Simone de Beauvoir, um pouco de Virginia Woolf.
Virginia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942.

Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres – menos, quero dizer, que sejam específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás – por Fanny Burney, Aphra Behn, Harriet Martineau, Jane Austen, George Eliot* –; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terrenoe orientando meus passos. Então, quando comecei
a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare – se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos,
nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras,
antes de dar certo nas outras profissões.

Mas vamos à minha história – ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita – das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é bem simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha da esquina. Foi assim que virei jornalista; e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte – um dia gloriosíssimo para mim – com uma carta de um editor e um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço muito as lutas e as dificuldades da vida de uma mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato – um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E, quando eu
estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”.** Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez
não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado,
era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está  escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura”. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? –, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela. Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as
escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum – uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se livrado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido
que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância.

Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa
ótima, disse eu; mas um gato persa não chega. Preciso de um carro. E foi assim que virei romancista – pois é muito estranho que as pessoas nos deem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa
mais gostosa do mundo é contar histórias. É muito mais agradável do que escrever resenhas de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entender, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive – para que nada incomode ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele espírito tão tímido e esquivo, a imaginação. Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça. Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem - ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente os homens se permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.

Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira - matar o Anjo do Lar - creio que resolvi. Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que algumas mulheres já tenham resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes - e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez?

São perguntas que gostaria de lhes fazer, se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto - quando nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública -, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo - aqui neste salão, cercada de mulheres que praticam pela primeira vez na história não sei quantas profissões diferentes - é de importãncia e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido. Como vocês vão mobiliar, como vocês vão decorar? Com que vão dividi-lo, e em que termos? São perguntas, penso eu, da maior importância e interesse. Pela primeira vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas - mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.



*. Fanny Burney (1752-1840) escreveu romances e diários; Aphra Behn (1640-89) foi poeta, romancista e dramaturga; e Harriet Martineau (1802-76) escreveu sobre um amplo
leque de assuntos. Ver também as notas 9 (p. 41) e 14 (p. 44). (N.E.)
 **. Poema de Coventry Patmore (1823-1896) que celebrava o amor conjugal e idealizava o papel doméstico das mulheres. (N.E.)