Quando era pequena, tinha muito medo da água. Para entrar na piscina, só com duas boias, uma em cada braço, e mais uma ao redor da cintura. Não confiava plenamente nessa tecnologia, ainda tinha medo de me afogar, mas desde criança acho que pressentia que nas coisas da vida há duas opções ruins: entrar com medo e equipada, ou não entrar. Meu pai sempre foi um lugar de águas misteriosas, meio exóticas. Sua língua nunca coincidiu com a minha, seu mundo era cheio de sons que não formavam palavras, ou frases, como uma espécie de música. Aprendi a detectar, pelo tom de sua voz, quando ele estava prestes a terminar uma de suas longas conversar em árabe. É agora, ele vai desligar o telefone! Eu e meus irmãos nos olhávamos e ríamos, e comemorávamos internamente nosso domínio sobre essa realidade. A língua é quase toda feita de entonações, de emoções. Acho que por isso nunca busquei dominar aquelas palavras. Sua escrita, esses desenhos tão bonitos, até hoje não sei decifrar. Na minha casa se falava o português, mesmo ele, com seu sotaque. Nunca tentamos ser uma família bilíngue, o árabe era um outro mundo, distante, assustador, bonito. Aprendi a contar até cinco, alguns palavrões e falsos cognatos, o nome de alguns alimentos, e que tudo ali deveria ser lido ao contrário, da direta para a esquerda.
Águas coloridas
Fracassados

Erupção Monte Sinabung, Indonésia, agosto 2020.
Agosto, mês de explosões. Dia 4, Porto de Beirute, um depósito que armazenava nitrato de amônio. Rússia, dia 10, um posto de gasolina em Volgogrado. O vulcão Sinabung na Indonésia, inativo por séculos, até 2010, quando voltou a entrar em atividade. Em 10 de agosto de 2020, lançou uma nuvem de cinzas de 5km de altura. Coincidências, talvez. Curioso, pelo menos. Quando estamos todos in, para dentro, tantos ex, para fora. Explodere, fazer sair por meio das palmas, o significado original do latim vem do teatro, já que os maus atores eram expulsos do palco por meio da violência dos ruídos: gritos, vaias, palmas. Rejeitar. Golpear com os pés na dança, romper as ondas ao nadar. Precisei fazer essa costura, amarrações, para entender o imenso impacto desses eventos em mim.
Sou filha de pai Libanês. Beirute não é só um lugar exótico,
é parte da minha herança.
Sempre fui fascinada por grandes forças, terremotos,
tsunamis, vulcões. Quando era mais jovem, queria ser caçadora de tornados. Me
entretenho com horas e horas de imagens de destruição, num misto de compaixão
pelas vidas que são inevitavelmente afetadas, e de obsessão, assombro, pela
pedagogia da tragédia.
Mas hoje minha vida é dançar, golpear o chão com os pés,
romper as ondas do mar. Agradecer os aplausos, sofrer sua falta, fazer ruídos
violentos.
Tantos ex, nesses
dias in.
Parte da minha vida é dedicada a deixar de temer essa
energia extrusiva, ‘para fora’, tão assustadora dentro do lar, na pequenez do
meu corpo, das minhas tantas casas. Histórias infantis, paredes de palha, de
madeira, de cimento. Qual delas irá resistir? E se o sopro vem de dentro?
As costuras da escrita, esses labirintos de crochê, me
levam, quase sempre, ao útero, minha primeira casa, o dentro original, meu
primeiro dentro. E o trauma do primeiro sair.
Diz-se que o amor é uma invenção, nascemos com ódio, e só!
Com uma ânsia de vida que precisa de violência para se separar do corpo que nos
nutriu. A grande explosão. Big Bang:
assim começa todo universo, assim começou o meu. A fusão é essencial, mas quando
não se rompe aquele fio, quando um ser se resigna a viver a fantasia do útero
eterno, com as pernas encolhidas, sufoca-se em posição fetal. Morre ao tentar
se acalmar, ao tentar se apequenar para ficar.
Eu, como boa menina, não saí com facilidade. Tive problemas
com a raiva desde o útero. O medo de desagradar, todas aquelas ambições de
espaços maiores, a arrogância de considerar aquele lugar acolhedor e orgânico, meu
primeiro lar, inadequado à minha recém-adquirida grandeza. Até hoje não sei bem
cuidar de uma casa, com medo de que vou destruí-la. Por não saber como sair, também
não sei como ficar. Repouso e atividade em um enlace inescapável. Não se
soluciona um, sem mergulhar no outro.
“[...] as imagens do repouso, do refúgio, do enraizamento, [...] todas
elas sugerem um mesmo movimento em direção às fontes do repouso. A casa, o
ventre, a caverna, por exemplo, trazem a mesma grande marca da volta à mãe.”
A Terra e os devaneios do repouso – Ensaio sobre as imagens da
intimidade.
Gaston Bachelar.
Ninguém pensa na ira, na soberba necessária para sair da barriga. Não se fala muito disso, que os bebês não são inofensivos. De um dia para o outro, considerar-se apto a dar um salto evolutivo, respirar, viver na atmosfera. Pura e sadia arrogância. Depois, passar meses, anos, tentando se separar ainda mais, sofrendo para se contornar, defender suas próprias barreiras, sua ira como arma, contra esse retorno que se chama amor. Essa série de reparos constantes que fazemos ao destruir os laços, a cada segundo, quando viramos outra pessoa.
“[...] No empuxo da aceleração geral e da hiperatividade desaprendemos
também a ira. [...] A ira, ao contrário, coloca definitivamente em questão o
presente. Ela pressupõe uma pausa interruptora no presente. É nisso que ela se
distingue da irritação. A dispersão geral que marca a sociedade de hoje não
permite que surja a ênfase e a energia da ira. A ira é uma capacidade que está
em condições de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo
estado.”
Sociedade do cansaço, Byung-Chul Han.
As mitologias ao redor do meu nascimento são várias e
confusas. Havia um cordão ao redor do meu pescoço, havia uma mulher, minha mãe,
incrivelmente forte e inteligente, mas jovem e exausta, num mundo de mulheres
exaustas, de autoridades que diziam que eu estava atrasada. Havia cirurgias e
todos aqueles seres de jaleco que queriam ser capazes de dar à luz, com facas e
anestesias. Sempre pensei que se tivessem me dado mais tempo, eu teria saído
sozinha. Mas hoje em dia, percebo, em todas as minhas repetições patológicas,
que eu ainda não existia. Esse corpo que não existe precisa que todo o universo
conspire, que todo a história se alinhe. Esse corpo de mulher, que já se sabia
rosinha, cuidador, paciente, podia esperar, devia esperar. Devia ficar. Ou,
esse corpo de mulher, que está ali, a seu tempo, criando pulmões, esperando sua
hora, precisa ser apressado. As duas fantasias me servem bem, daí a vantagem
das fantasias.
“Imaginar será sempre
maior que viver. O trabalho do segredo vai infinitamente do ser que esconde para
o ser que se esconde. O cofre é um calabouço de objetos. E eis que o sonhador
sente-se no calabouço de seu segredo. Gostaríamos de abrir e gostaríamos de nos
abrir.”
Gaston Bachelar. A água e os sonhos. Ensaio sobre a
imaginação da matéria.
Autonomia ou amor? Autenticidade ou submissão? Ex? In?
Posso ir até aquele cantinho, engatinhando e ainda ser amada, cuidada? Ainda
vou poder viver? Posso ir mais longe ainda e voltar sem retaliações? Na dúvida,
fica-se. Talvez seja mais seguro. Se eu ficar, tenho controle. In-volução. Observo,
então, atentamente, obsessivamente, qualquer sinal dessa mãe, dessa figura
materna, desse pai que ela idealiza. Observo-os, estudo-os, sou uma espiã sem
linguagem, ou sem língua, não sei. E crio inúmeras teorias, todas falsas, todas
teorias do medo e da sobrevivência, teorias mínimas, como uma criança,
pequenas, distorcidas. Testo suas reações aos meus desejos, às minhas ações,
aos meus deslizes, e como um cientista incompetente, registro tudo que
corrobora minhas fantasias invertidas de grandeza, de que minha raiva é
destrutiva, de que os adultos são frágeis, de que eu posso cuidar deles.
Gaston Bachelard em ‘A terra e os devaneios do repouso’,
argumenta que “a vontade de olhar para o
interior das coisas torna a visão aguçada, a visão penetrante. Transforma a
visão numa violência. Ela detecta a falha, a fenda, a fissura pela qual se pode
violar o segredo das coisas ocultas. A partir dessa vontade de olhar para o
interior das coisas, de olhar o que não se vê, o que não se deve ver, formam-se
estranhos devaneios tensos, devaneios que formam um vinco entre as
sobrancelhas. Já não se trata então de uma curiosidade passiva que aguarda os
espetáculos surpreendentes, mas sim de uma curiosidade agressiva,
etimologicamente inspetora. É esta a curiosidade da criança que destrói seu
brinquedo para ver o que há dentro. (...) Não retemos senão a necessidade de
destruir e de quebrar, esquecendo que as forças psíquicas em ação pretendem
deixar os aspectos exteriores para ver outra coisa, ver além, ver por dentro,
em suma, escapar à passividade da visão.”
A criança nasce mundo, ela é toda, ela é tudo. Quaisquer
sentimentos e ações dos cuidadores são responsabilidade dela. A não ser que ela
possa ser. E para isso, é preciso que esse ódio não seja temido. A criança não
sabe nada sobre a guerra que estoura, sobre o luto, sobre a epidemia, sobre a
misoginia. Ela mede: se pode ser, pode ir, pode voltar. Pode viver. Mas ir não
é uma relação espacial, é uma errância subjetiva.
É preciso sobra existencial, gordura social, para que esse
ódio seja absorvido. Para que essa curiosidade investigativa, violenta, seja
vista como positiva. A criança é tão pequena e indefesa que teme matar, precisa
delirar sua impotência. É tão louca que se pensa mais forte que toda aquela
carne que a ampara, mesmo que mal. E talvez seja. Por que é pequena em matéria,
mas uma fundura de sombras e medos, um terror para os adultos. Foi projetada
para enlouquece-los com seu choro, com suas demandas. Amar é dar o que não se
tem. É dar sua falta. Aceitar que o choro de um bebê ecoe naquele lugar sem
peso que se aproxima da loucura.
Sheita Heti, no livro Maternidade (p.28), resume bem esse
sonho de toda criança, de todo adulto:
“Este será um livro para evitar as lágrimas futuras – para evitar que
eu e minha mãe choremos. Se, depois de lê-lo, minha mãe parar de chorar de vez,
poderemos dizer que o livro foi bem-sucedido. Eu sei que não é o trabalho de
uma criança impedir que sua mãe chore, mas não sou mais criança. Sou escritora.
A transformação pela qual passei, de criança para escritora, me deu poderes –
quero dizer que poderes mágicos não estão tão longe assim das minhas
capacidades. Se eu for uma escritora boa o bastante, talvez possa fazê-la parar
de chorar. Talvez eu consiga entender por que ela está chorando, e por que eu
também choro, e minhas palavras possam nos curar.”
Não tenho crianças, mas já fui uma, e como todos os adultos,
continuo sendo. E toda essa operação complexa de ser criança e adulto, num
mesmo corpo, brincar e não se matar, arriscar, conhecer, e ainda garantir algum
tipo de segurança e conforto, para que as próprias brincadeiras sejam
possíveis, é dos desafios que mais me surpreenderam quando vi que a vida adulta
não era nada como a fantasia que havia comprado na infância e adolescência. Não
comprei à toa, claro, me foi vendida com um objetivo muito claro, matar a vida,
matar esse ódio que é vida, essa ira que é separação, que é diferença, esse
olhar violento que tenta quebrar os próprios brinquedos, tenta se quebrar e
olhar para dentro. Essa ira de que falo, se fosse sentido, não se converteria
tão facilmente nas violências cotidianas que vemos, contra tudo que demonstra
ser buraco, ser vazio...tudo que não sou eu. Rupturas são violentas, e a
violência, em seu devido lugar, é vital. Evita todas as outras violências
deslocadas, da covardia, da projeção no outro. Bela violência de viver, sem precisar
matar ou morrer. (Na maioria das vezes.)
Tenho várias lembranças da raiva, a mais curiosa, numa briga
com uma de minhas melhores amigas no jardim de infância, para sentar no chão,
no primeiro lugar da fila. Senti um vazio. Sentia a falta dela. Senti esse
misto que chamam gozo, de um prazer com dor. De impor minha vontade, minha
competitividade. E estar lá, só, no lugar que queria. Depois, voltamos a
brincar. Eu com meu universo expandido, ela um pouco mais longe de mim. Sabia
que teria que passar um tempo consertando as paredes do que havia destruído.
O amor seria, assim, uma reconstrução, não é natural ou
instintivo. Sempre um ir de novo. Uma reparação. Retorno ao lugar do ódio,
agora livre do medo de se afastar e se perder. Esse aconchego que só existe
quando há duas peles, quando há um objeto que se encapsula, e cria o calabouço
do seu próprio segredo. Cria o espaço ao redor de si para que outro venha com
seu olhar, com sua curiosidade agressiva, no melhor sentido do termo. Não à
toa, o ex de existir.
Amar é o privilégio do fracasso! O amor é para os bons
cientistas.
Esse texto não é sobre dor. É sobre liberdade.
Poda
![]() |
| Scordinia - inflorescências |
Corpus Christi
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| Kitagawa Utamaro |
Esses rios de ar, de água, não me deixam parar. Atravessam uma carne que resiste. A realidade dela mesma é um limite, ela é um limite, a carne, que concentra o desejo em feixes contráteis, capazes de prazer, de lutar contra a dissolução no prazer absoluto - a morte, a loucura. As duas me atraem, permitir-se ceder, sair do mundo dos homens, de suas crises e contradições. Sair do mundo dos vivos, de suas moléculas entrelaçadas, dependentes, sofríveis. Existência plena, mineral.
Ídolos liberam em minha direção fios de aço, que se agarram em meus punhos para que eu possa descansar, enquanto o resto desse corpo é arrastado e minha cabeça rachada sangra.
Única forma de dormir, sono sem si.
Sono piedoso que liberta dos desejos. Desejos que giram roldanas, cordas e polias lubrificados com graxa preta, dentro do meu estômago. Cria sons impossíveis de violino, em uma carne ensanguentada - bile, gordura, ácidos e animais não digeridos. Mas as cordas soam como linha tesa, fio cortante. É duro suportar essa perpétua excitação nas extremidades, nos membros, no útero, no pescoço, na língua, nos lábios - todos eles-, nos nós concentrados de eletricidade que se acendem como vaga-lumes, em um triângulo quente que brilha entre minhas coxas.
É um mundo perigoso para pulsões fluorescentes, femininas, atraindo a atenção de predadores. Há que se contar com a proteção desse veneno próprio dos animais aposemáticos, que brilham cores vivas contra listras escuras, pois podem matar. Habilidade necessária, saber matar, com a própria carne, macia; sem dentes, sem garras. Evoluir esse veneno que liberta da camuflagem. Em algum momento um animal deve decidir que estratégia aprimorar para sua sobrevivência: forjar todas as cores opacas da floresta, das folhagens, do fundo do mar e, junto com o resto da matéria, assentar-se com as plantas, os fungos e os animais, em tons de marrom e verde; ou sintetizar venenos em sua pele úmida e brilhante. Há algo de sensual nas duas escolhas: a discrição da fusão com o ambiente, perpétua orgia esverdeada; e o apelo do objeto que se permite devorar pelo olhar, alimentando o desejo e sufocando-o, simultaneamente.
Cada animal sonha com aquilo que perde, ao ceder-se para a vida.
O vislumbre de uma mordida verde fluorescente penetra os sonhos de famintos seres marrons, que se debatem ao perceber que mordiscam carne proibida.
Uma cobra reluz na espera de outras peles venenosas para tocá-la sem risco de morte, penetrá-la neutralizando perigos, fazê-la sentir-se inofensiva.
Fábrica de senhoras, fábrica de mulheres
![]() |
| Women and perceptions of pain, Sarah Pierroz. |
Para onde foi a alegria de ter um inconsciente perpetuamente cheio, fazendo pressão, como a água contida em uma barragem repleta de pequenas rachaduras, que criam minúsculas cachoeiras, e, vez ou outra, arco-íris. Sem medo do esgotamento da criatividade por conta do acesso ao real, ao nu do ser, que não existe. Celebração das cisões eternas que nos distanciam do tédio do paraíso. Esse mistério, região obscura, campo do brincar e do medo.
Insegurança
O mar é calmo.
Afunda como rocha, é cuspida com repulsa. Apoia-se na espuma, uma vez mais, e avista, ao longe, uma onda sobrenatural, que nunca se formaria em alto mar. Não daquele jeito, curvatura perfeita, projeção afiada pronta para cortá-la ao meio. Acena lá do céu; fala com ela. Não sente o golpe, vira chumbo e quase se deixa. Lembra-se pequena, presa em uma sequencia ininterrupta de ondas. O mar não respeitou o acordo, estava abaixo do umbigo, e mesmo assim se vingou, de sua pequenez, insensatez. Onde esta minha mãe?
Nunca se esqueceu. Aprendeu a amar desse jeito. Amou sua mãe, amou o mar. Sem nunca confiar. Assim é que se deve ser. Seguir uma natureza inegociável, energia, movimento. A quebra de acordos, traição.
_________________________________________________________________________________
Caminha agora. Para a porta, em sua casa. Deve-se fecha-la antes de dormir. Fechar janelas, portas e frestas. Mas há um espectro branco, que quer (?) que precisa (?) que gostaria (?) de entrar.
É um fantasma, de uma velha, uma mulher, com entranhas que se deslocam, somem e reaparecem em seu abdome inchado de parasitas. Frente à última porta, a que finalmente deixaria sua casa segura, ela paralisa.
Onde está meu pai?
Estão todos dormindo.
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Observa agora, a onda, a mesma, de uma edifício muito alto. Distante. Está segura. Mas onde estão meus irmãos? Ao mesmo tempo sabe que estão vivos, muito longe dali, mas podem tão bem estar mortos, lá embaixo, onde a onda passou. Sente respingos, está há alguns metros desse desastre.
...Espera o recuo....
Areia movediça
A anorexia infantil e as portas de vidro
http://outraspalavras.net/blog/2013/08/11/a-anorexia-infantil-e-as-portas-de-vidro/

De Patologias e Ficções

A agonia de eros
Transgressão
![]() |
| Jerek Kubicki |
Há mulheres, outras, muito magras, que se rebelaram e, com coragem, descolaram-se de qualquer determinação sobrenatural ou genética que as submetem a ocupar espaços sufocantes, os quais não querem adentrar. São intrigantes, pois transparecem a falta, algo que escapa, deveriam ter mais; mais ombros, mais coxas, menos nariz, dedos mais longos. São aquém.
Há mulheres imensas, com bundas grandes, barrigas salientes, peitos enormes, que claramente desafiam uma herança genética, uma família invisível, a cultura da fome. Fascinam pela propriedade com que caminham, pela voz que ressoa em toda essa carne em excesso, pelo esforço que fazem para ser além.
É muito difícil determinar a transgressão. Talvez não seja absoluta. Não está no transbordar, no espaço que dilaceram com seus corpos, mas na sua decisão de se afastar, com muita dor e contorções, desse traçado feito por um artista indiferente a qualquer desejo de mulher, a qualquer noção de brincadeira a qualquer vislumbre de um abismo. Além e aquém de qualquer entendimento.
Sons negros: sedução
![]() |
| Sob a pele, 2013, de Jonathan Glazer. |
Parece nome de filme ruim, mistura de sexo e horror. O que não deixa de ser verdade. Certa vulgaridade. Pensando sobre a sedução, visualizo imagens perturbadoras, que afetam meus órgãos; apertam glândulas, em desespero de excreção. Impõem-se sobre mim imagens, noturnas, de teias, silêncio, presas e uma aranha, grande, mas de pernas finas e alongadas, que se dobram em sua articulação maligna e tocam, quase sem peso, fios muito delicados, dos mais resistentes.
Em sua aproximação sobrenatural à presa - imponência que resulta da confiança em sua própria tecnologia, mesmo que não se possa reivindicar mérito – há um espaço, uma falta, um vazio, que se espera preencher pelo devoramento de um inseto indefeso, completamente rendido, que não mais se debate, e se entrega ao prazer da morte.Sedução é estar nesse lugar, com a mais profunda presença, sem saber que papel se está desempenhando: presa, predador ou teia.
Cronofagia - o tempo é feminino
Quando me deparo com esse cenário, penso nos homens. Não como indivíduos, mas como ideais, de algo que não consigo alcançar concretamente. Penso nos motivos que os levam a restaurar uma honra perdida, na angústia necessária para mover tamanha violência, nas demandas doentes por provas de masculinidade, nas surras levadas na infância, no medo de não ser forte o suficiente, no pavor da impotência, de perder algo que nunca foi seu, nem de ninguém. Preocupo-me bastante com essa cultura patriarcal e falocêntrica, da força e da velocidade, pois os mais vulneráveis são sempre necessários, como instrumentos, objetos de um gozo mórbido, um dos poucos que restaram, as mulheres e as crianças, para aliviar a sensação de impotência dos homens quando a vida lhes foge do controle. Quando perdem guerras imaginárias, sofrem humilhações diárias, perdem seu reflexo no espelho, perdem seu emprego, perdem sua honra, somos sempre uma forma doentia de reencontro do homem com sua face mais abominável, aquela, fálica, que não aceita limites, que não sabe se abrir ao mundo, à diferença, ao outro, aquela que não compartilha, não escuta e não se entrega, nem ao sofrimento, nem ao amor.
Digo homens como ideal, pois em muitos momentos, em muitas instâncias, as mulheres não se distinguem dos homens, são, talvez, limitadas por sua força física, e pela cultura que as desencoraja à violência, mas abusam de seus filhos, os espancam, pois as crianças são para elas aquele poço onde se pode, nunca sem dor, reaver um pouco de sua honra perdida. Criam homens ideais que irão restituir a elas tudo que o mundo lhes deve, serão seu braço armado, não de todo incompreensível nesse mundo que lhes traz sofrimento diário, as desvaloriza, as abandona e as violenta. Odiarão suas filhas, de forma sutil, de forma constante, por seus excessos de sexualidade, ou por sua falta, transformarão meninas em homens, e homens em super-homens. Mulheres adultas condenarão suas irmãs ao fogo que pune, ao estupro que corrige, à gravidez que purifica, por sua autonomia e liberdade, por suas escolhas e por sua sexualidade. Pois, infelizmente, o ódio às mulheres, e ao feminino, não discrimina, alastra-se com leveza e gosto, saltando por classe social, gênero, contexto cultural e período histórico.
E os homens adultos, pais, tios, amigos, que direcionam sua energia à conquista do mundo, à ascensão das ladeiras artificiais do capitalismo, são figuras ausentes, fantasmas, que com sua ausência ensinam muito mais do que imaginam. Ensinam o que é ser um homem de família, o que se valoriza em nossa cultura, de quem é o papel de cuidador, quem tem status, ensinam que homens estão pouco disponíveis para os outros e que são capazes de roubar o tempo para si. Os homens, enquanto fantasmas são cronófagos; em sua violência comem o tempo, feminino, de forma antidemocrática, tomam o tempo para si, enquanto reclamam de excesso de trabalho. Tomam o tempo para a construção de um ideal vazio, sem substância. Um ideal masculino, um ideal de poder e invulnerabilidade. Não são eles que levam os filhos doentes ao médico e perdem dias de trabalho, não cuidam do mundo, nem deles mesmos.
O tempo é feminino, anda com autonomia, sem se importunar com a ansiedade, com a fome, com a vida e a morte. O tempo é feminino, pois aceita o que é, e se rende, não se abala em sua caminhar. É devorado por homens em nossa sociedade, pois o tempo é livre, e os desafia, a cada minuto, a cada respirar.
Três mulheres
![]() |
| Amy Kutler, Above the Fjord, 2010. |
Neste Dia das Mulheres, sinto saudades. De três mulheres que estão longe, partes de mim exiladas, no tempo, no espaço.
Sobre a maldade
![]() |
| Etsuko Fukuya |
Tempo
![]() |
| Etsuko Fukaya |
O que é a vida se não pêssegos maduros, suculentos; uma mescla de vermelhos alaranjados, penugem suave, sem sulcos de desidratação ou cores de prematuridade. Nem pequenos demais, nem inchados de dor. Reais, crescidos até seu limite, caídos do pé quando o corpo pesado se separa do ramo, sem esforço ou brutalidade. A impotência é amiga do homem. Ao tentar lutar contra o tempo das coisas, as matamos, mesmo que sua matéria esteja ali, crescendo forçadamente, ultrapassando os limites das frutas, dos animais e dos humanos. Mortos-vivos, alimentando-se de vegetais e animais além do tempo, em um universo paralelo em que não há pausa e não há espaços entre seres e suas ações. Um mundo cubista de bocas alienadas, caindo sobre pêssegos artificiais, narizes que não sentem o aroma da pressa, pessoas sobre pessoas, ações justapostas umas às outras.
Dentro de um quadro, uma moldura pesada, barroca, dourada. Aos poucos se consome todo o ar, pois esse pintor não pode parar de preencher espaços. O vazio come a carne de todos. E a arte (não) nos salvará.
Anjo do Lar
Em comemoração aos 106 anos de Simone de Beauvoir, um pouco de Virginia Woolf.
Virginia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942.
Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres – menos, quero dizer, que sejam específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás – por Fanny Burney, Aphra Behn, Harriet Martineau, Jane Austen, George Eliot* –; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terrenoe orientando meus passos. Então, quando comecei
a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare – se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos,
nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras,
antes de dar certo nas outras profissões.
Mas vamos à minha história – ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita – das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é bem simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha da esquina. Foi assim que virei jornalista; e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte – um dia gloriosíssimo para mim – com uma carta de um editor e um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço muito as lutas e as dificuldades da vida de uma mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato – um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.
Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E, quando eu
estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”.** Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez
não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado,
era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura”. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? –, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela. Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as
escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.
Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum – uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se livrado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido
que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância.
Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa
ótima, disse eu; mas um gato persa não chega. Preciso de um carro. E foi assim que virei romancista – pois é muito estranho que as pessoas nos deem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa
mais gostosa do mundo é contar histórias. É muito mais agradável do que escrever resenhas de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entender, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive – para que nada incomode ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele espírito tão tímido e esquivo, a imaginação. Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça. Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem - ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente os homens se permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.
Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira - matar o Anjo do Lar - creio que resolvi. Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que algumas mulheres já tenham resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes - e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez?
São perguntas que gostaria de lhes fazer, se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto - quando nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública -, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo - aqui neste salão, cercada de mulheres que praticam pela primeira vez na história não sei quantas profissões diferentes - é de importãncia e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido. Como vocês vão mobiliar, como vocês vão decorar? Com que vão dividi-lo, e em que termos? São perguntas, penso eu, da maior importância e interesse. Pela primeira vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas - mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.
*. Fanny Burney (1752-1840) escreveu romances e diários; Aphra Behn (1640-89) foi poeta, romancista e dramaturga; e Harriet Martineau (1802-76) escreveu sobre um amplo
leque de assuntos. Ver também as notas 9 (p. 41) e 14 (p. 44). (N.E.)
**. Poema de Coventry Patmore (1823-1896) que celebrava o amor conjugal e idealizava o papel doméstico das mulheres. (N.E.)










